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Sobre a despedida de uma alma colorida

18 out

De todas as piadas, a morte é a única definitivamente pronta.” É estranho ter escrito isso um dia e descobrir o significado só um tempo depois. O ridículo humano, antes de um defeito, é um aspecto natural. O homem da cara pintada se vale disso para encantar sorrisos. A morte é também um aspecto natural que, infelizmente, podemos até moldá-la em forma de graça, mas nunca vencê-la. E por falar nisso, é triste perder alguém. Mas perder alguém que faz graça, em tempos de ódio, não é uma baixa pessoal, mas para o mundo. É a certeza que ficamos sem um operário que coloca óleo na grande engrenagem que o mundo se tornou, evitando que os corações se enferrujem. Os homens perderam o dom da simplicidade, os palhaços os lembram cotidianamente dele.

Não é raro uma criança nos perguntar “Você é palhaço de verdade ou só pintou a cara?.” Fiquei um tempo pensando sobre isso. Existem homens-palhaços ou homens e palhaços? Acredite, é diferente. Se entendermos que o palhaço está estritamente ligado a um homem, é a certeza que o sorriso se apagará com a morte. Mas quando acreditamos que o palhaço está acima da condição humana, percebemos que seu corpo físico pode até ser levado, mas sua alma colorida sempre estará por aqui, ainda que em lembranças. Creio profundamente na segunda opção. Quando escolhemos pintar a cara (e alma) como missão, estamos avivando um novo ser. Ainda que nossos sonhos e dores permaneçam debaixo da roupa colorida, desperta naquele momento aquele que emprestará para sempre seu brilho nos olhos para os demais, mesmo quando os seus olhos se fecharem. Sendo assim, a eternidade para os palhaços é mais que um consolo é um caminho certo a ser percorrido.

Respeitável Público, a dor acompanha o homem desde o despertar, já a alegria se fez presente quando ele se esbarrou com as cores. Ali se distinguia o momentâneo e o eterno, o passageiro e o perene, a morte e a vida, o homem e o palhaço. E se a vida é mesmo uma grande viagem, o homem pode até descer na próxima estação, mas o cara pintada seguirá pelos trilhos, ainda que seja no teto, no sótão ou em qualquer lugar que não possa ser visto.

Farley Kennedy era artista circense do grupo Só Riso da cidade de Jequitinhonha. Participava de movimentos culturais na região e era muito querido por onde passava. Faleceu no dia 14 de Outubro decorrente de uma complicação respiratória

 

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Publicado por em outubro 18, 2016 em Uncategorized

 

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